toda vez que penso em você eu sacudo a cabeça num gesto medonho e nada acontece. penso em gritar que quero sentir tudo de novo -amor, medo, ciume- sem que me ouça e me veja com seus olhos de rímel. a sua boca de cigarro e menta e saliva e vinho barato que num cuspe tocam o chão e eu sequer nunca senti. nessa testa que você beija eu já quis seu ombro sem culpa e tenho que tocá-lo sempre, a cada instante, ainda que eu crie reação alérgica, tocar seu ombro porque você foi meu carma; esotérica eu te digo que nunca me deixe. é fraca a carne, o lóbulo da minha orelha treme e meus ossos enfraquecem, eu sinto a vertigem, o refluxo. quero poder sussurrar no seu ouvido e sentir o quente das coisas; sem corpo, líquido, língua, beijo, sentido -só você na minha frente ouvindo que meu amor por você é mais loucura que verdade.
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05 julho, 2017
26 setembro, 2015
Ela
E ela era apenas uma onda
que se quebrava no meu mar
e se distanciava
quando eu chegava perto
que tocava fria nos meus pés
(era como me perder nas partículas dela).
E ela foi apenas um galho
que se escondeu nas minhas folhas
e se embebedou do meu leite
que me machucava com suas pontas finas
e se jogava sempre
sempre que a chuva vinha.
E ela era apenas um bocejo
que aparecia leve no meu rosto
e durava míseros segundos
sem deixar rastros
(não me deu tempo para amar).
E ela se foi
como átomo presente
agora sem vida
ausente
de mim.
que se quebrava no meu mar
e se distanciava
quando eu chegava perto
que tocava fria nos meus pés
(era como me perder nas partículas dela).
E ela foi apenas um galho
que se escondeu nas minhas folhas
e se embebedou do meu leite
que me machucava com suas pontas finas
e se jogava sempre
sempre que a chuva vinha.
E ela era apenas um bocejo
que aparecia leve no meu rosto
e durava míseros segundos
sem deixar rastros
(não me deu tempo para amar).
E ela se foi
como átomo presente
agora sem vida
ausente
de mim.
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Escritos inspirados em alguém,
O que se deu em algum momento,
Poesias
04 julho, 2015
Falei, mesmo que não ouvisse
Ela, sujeita e nunca
imune, de amores inventados e tantos perdidos, dizia sentir sempre,
escorregadia e entregue, os vazios existenciais e os implantados. Não importava,
amava e se doía enquanto carregava uma garrafa de confusão entre o peito e
parava em cada esquina, esperando a noite cair. Dançava no meio das luzes
acesas e os olhares atentos e as risadas de lado; estava perto de chorar, dava
pra sentir. E chorava, chorava, chorava. A noite vazia, e o peito mais ainda,
sangrava pelas bordas e a enxia de esperança. Estava perdida, pude perceber.
Perdida e exausta da vida, colocava sempre os dedos dentro do bolso da camisa xadrez
(como amava aquela camisa vermelha de dor e cansaço) e encarava a possibilidade
de um cigarro na ponta dos lábios e a fumaça saindo e a vontade de correr
chegando.
Mas não fumava, era
o que dizia. E dizia tantas coisas que já nem dava pra acreditar, coisas como
vou parar de me autodestruir e parar de chegar ao fundo do poço sem ao menos
ter tentado. Estava sempre cantarolando Chico e repetindo que sua lei agora a
obrigava a ser feliz, mas nem sempre conseguia, nem sempre dava pra ser. E
agora que tinha liberdade, não sabia como. E eu a olhava de longe; moreninha e
sofrida, transparecia num sorriso uma ternura inconfundível e uma incerteza
surreal, mas a raiva lhe corroía sempre dentro do peito e a ternura logo
desaparecia. Esperava qualquer coisa como algum ataque no meio da rua, brigas e
enxaquecas; mas ela, tímida, não saía do lugar reservado para decadentes se
abrigarem. E parecia nunca ter abrigo, um lar, uma casa pra onde voltar.
Nunca consegui olhar seus
olhos, de tanto que encarava o chão. Mas eu imaginava tudo castanho nela, quem
sabe um verde caído, quem sabe tons de mel ou um breu, tons de cinza-escuro. E
eu imaginava que ela sabia de mim e sabia que eu pensava naquele choro de
esperança à noite, antes de dormir. E que a ouvia, mesmo que não falasse. Que
sorria, mesmo que ela não sorrisse de volta. Que a defendia diante dos vizinhos
e escrevia pra ela toda madrugada de insônia, porque era o que dava pra fazer
no momento. Era o que eu fazia por ela. Eu parava sempre na mesma estação, ida
e volta, encontro e despedida. Ainda dava pra ver seus pés descalços pela
janela do trem que me levava sempre a um destino contrário ao dela. Mas nunca
parecia saber pra onde ir, vagava o dia inteiro. E hoje, chão molhado de chuva,
ela pareceu se encantar pelos trilhos molhados, pois, felina e amarga, segurou
com força o que parecia ser uma liberdade feliz. Do alto, eu pude vê-la
sorrindo, me encarando. “Tem gente que vem pra nunca mais”, pensei. Tem gente
que já vira poema só de saber pisar no chão.
23 junho, 2015
mesmo sem você
e a boca cale
e a mão, trêmula,
não te desate
os nós
ainda existe nós
ou não?
carregamos a alma
na palma
das mãos.
mesmo que a noite caia
e a lua suma
e a chuva, lenta,
não se assuma
não fuja
de viver.
a vida parece bem melhor
de manhã.
um dia já fui sã,
jamais pretendo ser.
tem amor que vem pra melhor,
mas os meus só vêm pra doer.
mesmo que o café acabe
e eu perca o medo
e eu saia da sua casa
sem beijo
sem nada
sem você na minha mala
a gente pensa
que mesmo sem poema
tinha gente
que se amava.
17 junho, 2015
Daquelas que dão a chave mas não abrem a porta
Uma Espanhola me dizia que arrancaria um sorriso
de cada uma que visse passar.
Parecia nunca estar sozinha
e, mesmo estando muito fria,
deixaria livre quem a deixasse livre pra amar.
Fazia da minha dor uma grande suspeita
e ainda dizia que sorrir nem sempre era a certeza
de que andava feliz.
Agarrando minha saudade na sua,
dizia que nunca mais sofreria por mulher nenhuma.
Talvez à noite, enquanto se embriaga,
e esfregava os olhos antes de dormir.
Enquanto a ressaca deixava sua fala triste,
me falou da constante presença do outro lado da cama.
Mesmo que entre elas, nenhuma ela ama
e sentia falta daquele amor que ainda existe.
"Mas não há cura pra distância", ela dizia,
"nem do quanto eu dependo de alguém".
Talvez um dia farei dela minha moradia,
mesmo que sua porta não se abra pra ninguém.
de cada uma que visse passar.
Parecia nunca estar sozinha
e, mesmo estando muito fria,
deixaria livre quem a deixasse livre pra amar.
Fazia da minha dor uma grande suspeita
e ainda dizia que sorrir nem sempre era a certeza
de que andava feliz.
Agarrando minha saudade na sua,
dizia que nunca mais sofreria por mulher nenhuma.
Talvez à noite, enquanto se embriaga,
e esfregava os olhos antes de dormir.
Enquanto a ressaca deixava sua fala triste,
me falou da constante presença do outro lado da cama.
Mesmo que entre elas, nenhuma ela ama
e sentia falta daquele amor que ainda existe.
"Mas não há cura pra distância", ela dizia,
"nem do quanto eu dependo de alguém".
Talvez um dia farei dela minha moradia,
mesmo que sua porta não se abra pra ninguém.
Não terei pressa pra eternidade, Espanhola.
16 junho, 2015
o amor é castanho-escuro
vou me perder no breu dos teus olhos castanhos
que nada dizem
e por não dizerem, não se revelam.
não me mostram o caminho que devo seguir.
meu rosto manchado, no papel impresso,
não serve como espelho.
teus olhos, sim.
porque mesmo no escuro, me enxergam.
vou me esconder no vazio dos teus braços
que se abrem como quem não querem nada
parecem cúmplices,
culpados,
nunca saem do espaço reservado pra mim.
"o que há de errado com esses saltos
que a gente vê da janela?"
eu não perderia meu tempo agarrada
na parede mais fria que teus olhos.
pularia junto, sem cautela.
pra não ter que olhar de novo as tuas fotos.
talvez um dia eu esqueça de me esquivar,
pois me entristece a falta que teu olhar faz.
30 maio, 2015
ficar nunca é demais
ah
como fazer pra ela perceber
que as árvores que eu planto não dão frutos
e eu não sei dizer "fica mais um minuto"
que eu não aguento de tanto esperar.
me diz
como alcançar uma nuvem aqui de baixo
se eu só sei andar com os pés descalços
pra sentir a areia me tocar.
fala
de como a gente se desfaz
daquilo que a gente nunca foi
se é preciso olhar mais longe
pra se perder no horizonte
e só se encontrar depois.
volta
como se a ida nunca tivesse acontecido
e você não tivesse se esquecido
que ficar nunca é demais.
25 maio, 2015
Abstinência (a gente só sabe se perder)
Nada me ocorre, senão esse vício
que se mostra frágil diante dos meus olhos,
e que entende meu insano silêncio
e me destrói com seu desvio de caminho.
Um lugar que hoje se mostra triste,
onde a gente se via sem enxergar o mundo,
e o mundo nos via sem enxergar a gente.
Prometo encontrar respostas
para os cacos que ficaram durante o percurso
que já não me cortam, nem me fazem sangrar,
mas apelam para o silêncio recluso
que aparem durante o trajeto.
Distante, nem um pouco menos distante,
imagino um sorriso que se iguala
aos lados mais bonitos do universo.
que se mostra frágil diante dos meus olhos,
e que entende meu insano silêncio
e me destrói com seu desvio de caminho.
Um lugar que hoje se mostra triste,
onde a gente se via sem enxergar o mundo,
e o mundo nos via sem enxergar a gente.
Prometo encontrar respostas
para os cacos que ficaram durante o percurso
que já não me cortam, nem me fazem sangrar,
mas apelam para o silêncio recluso
que aparem durante o trajeto.
Distante, nem um pouco menos distante,
imagino um sorriso que se iguala
aos lados mais bonitos do universo.
13 maio, 2015
Alguém devolve Ela
Que esse amor, se sabe voar, não voe.
Que não se perca no caminho
quando quiser se encontrar.
Não vire o pássaro, não vire a página.
Que não se deixe se encantar pelo mar.
Que esse amor, se sabe brilhar, não vire estrela.
Que não brilhe pra qualquer um
que lhe devolva o brilho.
Não saiba onde fica o caos,
não saiba onde fica o cais.
Que não pule de qualquer prédio da cidade,
que saiba escolher o melhor.
Que esse amor, se sabe correr, não fuja de mim.
Que não seja apenas clandestina na minha vida.
Não esqueça de abrir a janela
e se acaso a feche, que o faça devagar.
Pra que esse amor, se sabe ser amor,
saiba também ficar.
Que não se perca no caminho
quando quiser se encontrar.
Não vire o pássaro, não vire a página.
Que não se deixe se encantar pelo mar.
Que esse amor, se sabe brilhar, não vire estrela.
Que não brilhe pra qualquer um
que lhe devolva o brilho.
Não saiba onde fica o caos,
não saiba onde fica o cais.
Que não pule de qualquer prédio da cidade,
que saiba escolher o melhor.
Que esse amor, se sabe correr, não fuja de mim.
Que não seja apenas clandestina na minha vida.
Não esqueça de abrir a janela
e se acaso a feche, que o faça devagar.
Pra que esse amor, se sabe ser amor,
saiba também ficar.
06 maio, 2015
Ela é toda sensação

Nunca acreditei nas tardes alegres. Preocupava-me a obsessão por raios solares e multidões reunidas. Rostos felizes e suados me afligiam, além das praças que carregavam consigo as risadas de fim de tarde. Também não acreditava naqueles olhos que me observavam, querendo me decifrar. Naquela voz que insistia para que eu não partisse e encarasse aquela tarde, sentada em um banco de praça, que já presenciava tons de cinza-escuro.
Sentei-me uns dois palmos ao seu lado, mais por receio que por qualquer outra coisa, e me vi procurando uma aproximação mínima que fosse, e calculava as chances dela me pedir que chegasse mais perto. Compartilhar carência era uma razão justa e um pressuposto ideal para aquelas horas que passavam aos ventos fortes e às nuvens que já alertavam sua aparição. Aproximei-me com o desejo de nunca mais me afastar de tais braços que gesticulavam ao meu lado, acompanhando uma voz que eu não conseguia traduzir os tons e os desejos. Despencando o corpo para frente, com o intuito de amarrar cadarços teimosos, senti aquela que seria a sensação de maior significância, apesar da dúvida e da simplicidade: "consigo ouvir seu coração bater". Com os ouvidos colados nas minhas costas e os braços me rodeando; meio que formavam um ciclo aqueles gestos que talvez transparecessem afeto ou solidão, me pegaram totalmente de surpresa. E ali pensei que quaisquer gotas de perfume contidas naquelas orelhas agora residiam em parte atrás do meu corpo. Voltei à posição ereta, encostando delicadamente as costas no banco, como que para não perder a sensação de minutos atrás, e revelei uma tranquilidade quase inexistente.
Encostei a cabeça em seu ombro, como se encosta um pano úmido na testa para sentir que a febre abaixou, e dormi. Dormi sem alarde, sem pretensão. Dormi porque era o gesto ideal. Não sei se por segundos ou horas, senti digitais deixando marcas em meu queixo, querendo se livrar de fios que meus cabelos soltavam pelo ar. Não pude pensar em mais nada, apenas em como as tardes se transformam e levam pessoas consigo. Como se acolhe algo que se quer esconder, abracei-a. Assim mesmo, de lado. Abraços que não veem olhos nem boca. Abraços que se escondem e parecem infinito. "Ela é toda sensação", pensei. "Ela é toda maresia que se encaixa com perfeição nas nuvens cinzas".
26 abril, 2015
aqui
então é isso, acabamos aqui. não aqui como se aqui fosse um lugar real e nós estivéssemos agora numa transição de pensamentos e encarando uma suposta despedida. digo aqui como se fosse o único jeito de meu cérebro e meus sentidos entenderem que você está indo. ou eu estou indo. mas um de nós está encarando uma partida e eu não sei ao certo se acolá será do mesmo jeito que está sendo aqui, agora. é nós nos despedimos nesse minúsculo espaço que se encaixa apenas nossa respiração entrecortada e nossos olhares que não sabem se direcionar a outro lugar a não ser nossos próprios olhos e eu não sei te dizer fica mais um pouco, quem sabe mais alguns meses ou anos. fica até nós percebermos que não está dando mais certo. mas enquanto está, fica. e você não consegue ser otimista o suficiente para ficar mais um pouco e dizer que as coisas ficarão bem caso nós ficássemos só mais esse tempo juntos e por aqui. porque acolá também estaríamos nos despedindo. seria uma despedida de qualquer forma porque foi no que pensei em escrever quando nos conhecemos e foi como uma espécie de adivinhação. não queria ter adivinhado essa partida, me perdoa. me perdoa por continuar escrevendo pra você todos os dias com a intenção de que permaneça por mais tempo e por aqui. vê se me carrega debaixo do braço como aqueles livros que caminham do teu lado e me leva pra todo lugar. seja aqui, seja acolá, seja em em qualquer direção. vê se não esquece de me mostrar teu novo caminho, teu novo endereço, tuas novas circunstâncias. mesmo eu não fazendo parte de nenhum dos três, de nada que te completa. me espanta essa tua calma e essa tua lucidez e essa bagagem que parece querer aumentar sempre. e agora eu procuro alguma esperança nos fios do teus cabelos que se distanciam e se distanciam tanto que se eu tentasse gritar, eles apenas se distanciariam mais. então eu penso que vou ficando por aqui, pensando se por acaso a gente se cruzasse e lembrasse da despedida de minutos atrás.
21 abril, 2015
Acaso ou destino?
por
acaso eu não acredite?
Foi
sem querer que te vi perdida
ou te
achei com a ajuda de alguém?
Passei
por cima de cada trilha
que
guiava o caminho contrário
e me
vi esbarrando no braço
que
achei mais além.
Olhando
pra baixo, com medo de ver,
me diz
o que me fez desviar pro teus olhos.
E
assim, por segundos, caminhar do teu lado,
mesmo
não enxergando o que eles queriam dizer.
E como
saber se a gente se alcançou?
Se no
meio do caminho o sentido era incerto?
Lágrimas
esperaram o momento de cair
enquanto
a gente não passava e saía de perto.
Não
soube se era real ou o que acontecerá a mais
se nos
teus olhos eu apenas enxergava a partida?
E dói
ter que lembrar que não pude olhar pra trás,
mas
sei que te vi, pois te perdi de vista.
12 abril, 2015
Encaro sem ver-te
Saudade,
eu te vi morena.
Deitada de bruços,
encarando meu riso.
Tristeza,
flagrei o teu choro.
Teus olhos vermelhos
já vêm sem aviso.
Mágoa,
te deixei que viesse.
De malas vazias
pra não demorar.
Vontade,
lamentei tua ida.
De costas pra vida,
de frente pro mar.
Coragem,
te tive sem freio.
Sem culpa, sem medo,
perdida sem rumo.
Ferida,
forcei teu surgir.
Com olhos pra baixo,
sendo alto, eu pulo.
09 abril, 2015
alasKa
Ela anda pela praça.
Passa.
Agarra a vida que ela não escapa.
Ela nada pela praia.
Sara.
Joga a tristeza onde não encaixa.
Ela dança na alvorada.
Marca.
Não é sonhando que se cria asa.
Ela consegue me tirar de casa.
Para.
Que eu ando meio apaixonada.
Vê se não se cala, alasKa,
que o vazio não se instala.
Passa.
Agarra a vida que ela não escapa.
Ela nada pela praia.
Sara.
Joga a tristeza onde não encaixa.
Ela dança na alvorada.
Marca.
Não é sonhando que se cria asa.
Ela consegue me tirar de casa.
Para.
Que eu ando meio apaixonada.
Vê se não se cala, alasKa,
que o vazio não se instala.
12 março, 2015
Olhos de Ressaca

Ela me olhava com seus olhos de ressaca, tristes e únicos,
como se me revelassem a bebedeira da noite passada, e dissessem “cuida dela,
ela precisa parar”. E ela precisava urgentemente parar, e me dizia “não
esquenta, posso depender de você, mas de cerveja nunquinha”. Ela não dependia
de mim, eu pensava, anos e anos de garrafas vazias, gostos amargos e
sentimentos profundos que eu nunca presenciei. Seus gestos eras lentos como
seus passos, como seu desvio de olhar que sempre se direcionava a parede cinza
mais próxima. Gostava de olhar o nada, procurar belezas onde na verdade não
existem. Dizia que os detalhes eram tudo o que nós tínhamos e percebê-los eram a
única maneira digna de viver. Talvez eu não fosse digna o suficiente para
perceber seus detalhes. Nem seu olhar, nem o sabor amargo que deixava seus
olhos caídos e tristemente encantadores. “Para quê um beijo se eu podia ter o
vazio do teu olhar” eu dizia. E fixava nos seus lábios apesar de tudo. E
pensava que seus olhos quase ganhavam do seu sorriso, que apesar de raro, era o
que me desestruturava. De corpo e de alma. Não que eu acreditasse em almas, mas
ela conseguia enxergar o mais profundo de mim, e dizia “consigo ouvir seu
coração, aqui de longe, do outro lado da vida”. Mas me abraçava e colocava os
ouvidos nas minhas costas como se as batidas do meu peito frio a deixassem mais
calma e revelassem que eu ainda estava viva. “Por enquanto” eu dizia, “é só
questão de tempo para que esse seu olhar psicopata me mate de vez”. O tempo
passou e eu ainda me vejo perdida dentro daqueles olhos, que brilhavam tanto,
não por felicidade, mas pelas lágrimas que precisavam de um tempo antes de cair.
10 fevereiro, 2015
Deveria ter seu nome
Moça,
teus olhos já não mudam de acordo com o sol
nem teu lábios se apressam quando me veem
você partiu para além da margem
e eu ainda nem te decifrei.
O tempo passa rápido demais, menina,
eu não pude te alcançar.
Não sei o que você guarda debaixo dessa manga comprida
nem se no teu peito tem algum lugar
(que eu já não chamo mais de meu).
E meu sorriso continua sendo seu
e a gente corre de acordo com o céu
na linha reta entre duas solidões;
você foi minha entre as multidões
mesmo não saindo do papel.
Mas hoje o meu coração está tão pequeno
que o amor está sentindo dificuldade
e é das paredes do meu apartamento
que os vizinhos andam reclamando.
Não daquele nosso amor.
Quem de nós vai tentar um pouco mais?
É que eu não enxergo as diretrizes.
09 fevereiro, 2015
Posso depender de você
o sol apareceu.
as pernas travaram
a cabeça abaixou
o sono pediu licença.
as paredes racharam,
mandaram eu me apressar.
"ela tá indo embora"
e eu nem consegui sair do lugar.
pensei em desistir
dar meia volta
voltar amanhã de tarde
no mesmo horário
no mesmo momento
"ela estará esperando"
e me veio um pensamento:
será?
e a história é a seguinte:
acho que foi por causa
da falta de sono
deve ser culpa do
excesso de café
passou-se tempos
ainda não sei o que ela ama
no que ela se encanta
nem sei o que ela é.
vou descobrir
à toa
me doando
sem medo
que me doa.
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