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15 março, 2018

o dedo que me penetra

o dedo que me penetra não tem nome
é cálido som puro, estatueta de mármore e pedra.

escorrego,
porque lapidou-se o que em K. era nítida rocha bruta
olho para o meu estômago com teu pedaço de unha dentro
como as espinhas de peixe que um dia engoli,
tendo sempre o vômito verde-mostarda.
não acredito que isso que você quer achar
queira ser visto numa colonoscopia:
é gastura simples. pedaços de amina e merda.

e fogo-fátuo, rastros de tesão e fuga
te amo como as tarântulas e as begônias e os rochedos ao redor do rio
porque sei que me esquivo da tua pele de corte de peixeira
e te ver sentir enjoo do peso exaustivo da minha sombra
interfere na minha ganância de ser palácio e estábulo ao mesmo tempo.

não ache que é por você que choro
enquanto meu cabelo cheira a gasolina e óleo dísel.

há a loucura que tento esconder de K.
se a tenho como tenho toda gente que comi, ferina
deixando meu canino pregado em cada coxa preta
o dedo que me penetra não tem nome
é viga suspensa. ferida de queda de cavalo.

e fazer do cigarro a imagem de pessoa distraída
poder encostar no limbo, saber que o limbo cresce
sob teus olhos, a cama. a prece. o desejo. somam-se
inúteis no 1/11 avos do teu espaço-tempo. calejada,
eu te somo a mim, teu puro sangue gasto de rainha.

o dedo que me penetra tem nome
mas eu não sei qual é.

13 março, 2018

antes de construir às margens de uma rodovia

antes de construir às margens de uma rodovia
uma mulher precisa ouvir seu marido que
precisa comprar um terreno e que este dê verduras
essas verduras precisam ser carregadas por um caminhão
um caminhão que seja guiado por jesus

antes de construir às margens de uma rodovia
uma mulher precisa ouvir seu marido que
precisa contatar a autarquia e a autarquia dar suas ordens
com seus devidos apitos na garganta
esta deve estar seca de dunhill

antes de construir às margens de uma rodovia
uma mulher precisa ouvir seu marido que
precisa de mais meia hora de sono
e depois poder beijar todo mundo na boca
como fazem esses bons senhores dessas faixas de domínio
e esta precisa ter uma rodovia amplamente facetada
e ela poder escrever na calçada "nosso amor
é passível de inclinações"

antes de construir às margens de uma rodovia
uma mulher precisa ouvir seu marido que
precisa solicitar um alinhamento e este
se o governo quiser não decepcionará a família
a família de um homem só
e poder pensar no direito de ir embora
como um rio que corre

antes de construir às margens de uma rodovia
uma mulher precisa parar
de ouvir seu marido.

19 fevereiro, 2018

presságio

te amar como um projeto de míssil
alvos se mostram prontos meu digníssimo silêncio
te estourar os ossos
fazer da morte um presságio
tenho baba de homem na boca
de quem perdi metade de meu desejo
e continua o que de vivo sobrou meu tempo:
na boca dessa menina apenas sinta a saliva
que ofereço.

14 fevereiro, 2018

cintilantes. volúveis. fieis.


a vitor, jean e cecília

estando em meio a tantos corpos magrelos eu não me importo
que os ossos de algum de vocês me perfure a costela
e eu varreria tua casa com meu arrastar de chinelo
devagar, porque não costumo andar em linha reta
e me borda os calcanhares, não tenho medo
e num relance de escadas, em meio às cavalgadas cirsenses
eu te chamaria de potro, meu esbelto potro
te pediria que me lançasse longe

por uma morte que não é ferida por uma ferida que não arranhe
meu menino me é quase como uma dama de vermelho
que tem areia no batom que espera constantemente pelos touros
podem ver, por esses óculos, o rapaz bonito que eu tô vendo?
depois me fazer escandalizar no coração desses meninos

por você eu estaria sendo eternamente confeccionada
como se tivesse cheia apenas de presença em que tudo é processo
tua calça estampada que se confunde nesse estofado
não importa se pareço vestida
me movimento com os dedos tua falange esbranquiçada
posso desfilar onipresente nas peles finas que habito
e assim te presenteio com os dedos de esmalte
mas você constatou que de tudo ficou um pouco do meu desejo. do teu vazio
@ me entrelaça os dedos me deixa perplexa

me abraçou forte, meu pintor de parede
[se tua casa fosse ninho pro meu antro]
onde vejo um desenho do roberto carlos olhando pra cima
a jovem guarda me é um mistério e eu ouço
hojendia só o solo da tua guitarra
hojendia só a falta de sincronização
hojendia só a queda dos meninos jogando bola
aqui, agora
nada mudará o fato de que eu ainda terei que pegar o próximo ônibus

23 janeiro, 2018

ser mais bicho que silêncio

depois de alguns anos morando sozinha
a crosta das coisas estáveis desmoronam em rápidos segundos
e eu me torno mais densa
esse grito que dou na sua cara se torna mais denso
sorte sua o banho de piscina ter te tirado a audição

e no colo das coisas tangíveis eu localizo uma flor
porque tudo que posso tocar não me é viável
eu permaneço intacta
você não me toca

mas como eu disse pra você num dia de primeiro quarto crescente
que minhas ideias novas não surgem de discursos livres
eu apenas lembrei de uma fala, não era uma constatação
e eu pude ver em seu rosto o medo da liberdade
porque ser livre justificaria minhas ações
e nós prometemos não falar sobre isso

não acabe com o meu nome riscando-o no seu braço com essa caneta
eu gosto quando você fala
e poder ouvir meu nome na sua boca é o toque que eu não sinto
você percebe o quanto tira de mim aquilo que eu não tenho?
você me diz que eu só vivo num mundo paralelo
onde aparentemente é mais viável ser mais bicho que silêncio
e eu só acredito no corpo
o corpo é tudo

e no limbo que é a arquitetura média desse quarto
depois de alguns longos anos morando sozinha
eu poderia usar dessa máquina de lavar para aliviar minha frustração
lembrando daquele filme pernambucano que você me mostrou
quando conversávamos sobre o cinema de recife
e parecia sempre perto do dia 25 no calendário lunar
éramos eu você essa flor e essa lua
vendo uma mulher se masturbando enquanto lavava roupa
não tenho medo, nunca, jamais, da solidão
é só que eu não aguento

depois que você resolveu vir morar comigo
e eu preenchi a minha casa com metade do seu vazio
vi que é melhor não ter a ter e ter que perder de novo
e é por isso que eu grito crua na sua cara
e peço que você vá embora

12 dezembro, 2017

do baixo dos prédios

olhando aqui por baixo teu olhar xamânico
vezenquando permanece vivo o negro petróleo nas narinas
e eu penso que rapé é uma miragem
uma visão de necrotério
e eu penso que sou ciente. sou solúvel.
deixando meus pés descalços nas camadas finas de sal grosso
estaríamos você e eu monocromáticos
traindo nossa vila, nossa bandeira
e aqui de cima eu penso na depressão de quem olha pra baixo
vou saber das marcas únicas de sapato
eficiente olhar confuso em desvendar verniz.
descobri que tudo racha
talvez se salve os lábios de gloss brilhoso
a cidade não protege quem não olha pra frente
e fica preso em seu pequeno sabor de hollyood
o peso que sinto sobre você é porque verifico pulmões
e eu não quero que morra
a minha menina.

pensando em escalar paredes eu desenvolvi esse apreço
vivo contínua. perplexa. saturada.
e esse prédio tirando minha vista eu não me conformo
por isso eu escalo paredes
por isso eu atrapalho o sinal da tv de vocês.
me prendi meticulosa nos teus calcanhares
porque aqui de baixo você parecia um bicho e teu cabelo se formou laranja
mas você não sabe escalar prédios
e eu caí.
aqui deitada nessa calçada eu penso que tenho um corpo selvagem
igual aos meninos de cabelo solto que se desmancham
em tantos e tantos pedaços de naturalismo
e que tudo em mim não me agrada
acho que sou um homem
, desculpa.

mas eu não posso saciar a fragilidade dos outros
e me expressar como um indivíduo desconstruído
eu sentiria saudade de mim
do eu confuso.

08 dezembro, 2017

você poderia, por favor, permanecer na janela?

tateias, cega, o ventre frágil de um bicho
olhas pra mim, tenho cara de subversiva?
tenho na língua algum gosto de vingança?
não verei chances em peles pretas
não verei suor como lubrificante
é o que vejo a rede balançando em silêncio
porque há algo de exaustivo em ouvir a própria voz
e por isso os escândalos
e por isso a rouquidão

tateias, indiferente, a nuca flácida de um bicho
a transa rápida se deve aos vários homens
mas nós temos o nosso próprio ritmo
nossas notas dissonantes
e busco alívio na mão que pesa
em minhas coxas tua unha é só miragem
mas eu sinto

tateias, cativante, o solo úmido de um bicho
são teus passos maciços sobre meu eterno cansaço
pra eu poder pedir pra rua que me encara amarga
mais olfato que visão
porque eu não tenho mais o mesmo rosto
e eu não percebo mais os mesmo rostos
eu não enxergo ninguém

tateias, paciente, o colo raso de um bicho
eu te veria tão bonita comentando filme mudo
que eu só me calo
sinto um peso breve quieto em minhas coxas
é você dando pausa
é que eu não posso deixar que façam casa na minha cabeça
eu te diria que não faça casa na minha cabeça
não agora

02 dezembro, 2017

poema para incentivar o coração não preenchido

para cecília

eu prometo te beijar sem esse cheiro de cigarro
que vem queimando meu bolso de trás
e sujando minhas calças brancas de tecido sedoso
não tenho no lábio gosto algum criança
pra poder sentir o seu direito
foi te chamando pra um samba gostoso na rio branco
que eu deixei minhas pernas bambearem soltas
e a voz do cartola no ouvido me soou verdadeiro
te escrevo pés descalços gozo sinuoso pra que me entenda, bem
me aproximo calma com o dedo sujo de tinta
eu não fico de olho nos meninos morenos de cabelo grande
eu só ouço uns tal de lo-fi como se ouvisse a nona sinfonia
continuo te vendo de chapada na roda apesar de tudo
e mesmo se você me dissesse adeus num grafite pra que eu não esquecesse
eu só conseguiria te dizer como é desconcertante
com você no meu braço eu não teria medo da câimbra
e que você não tenha medo também de pousar sobre minhas veias portanto
não me baste aos sábados como se eu não vivesse os dias todos
inaugurando os espaços que não nos cabem
pelo menos não espremendo limões

e poder te chamar de avenue des ternes
ou talvez saint-honoré
e te deixar fazer carinho no meu pequeno ventre
com um gosto sutil que eu quero no meu braço
travestido de 51

22 novembro, 2017

amor perda pânico armário soluço

eu só posso te ver com a mão no peito
me assegurando que minhas mãos são parede
teia. refúgio. cianeto de potássio.

que minhas mãos são ladeira
e que você pode descer
sem medo

tendo em vista o corpo todo e saber que ele é só uma máscara
escondendo o corpo que tem dentro
que esconde outro e talvez mais um embaixo
olhando bem pra dentro da sua primeira pele
onde há constâncias e regularidades
quando posso ver tua cabeça
teu peito longe de mim é o que menos importa

eu não consigo não correr o risco
porque tudo em mim é cada gesto sucumbido
história de selvageria transa mística que me atrevo a esquecer meu bem

não esqueço
a abelha que você manda pra longe
com um gesto de mão fechada
és aberta enfim só de corpo
e pra abrir você a gente usa aqueles serrotes com cabo de alumínio

saber que és toda autêntica e em si preliminar
só no teu rosto que a gente ver por um instante
a dor descendo dos cílios circenses
és aberta enfim só de corpo
e não fostes jamais veneno, agrotóxico. talvez a plantação.
e da tua árvore geneológica
só você conhece a vida

assim se as coisas que você pensa e sente
tem origem gesto explicação
mostre gesticule explique
por você ter no mesmo teto o fogo-fátuo
com aparência de gente de cabelos brancos
que da palavra adeus
eu só consigo ler desastre.

11 novembro, 2017

oi tô te ligando - parte 1

andei pensando se é verdade
que a gente se desfigura
não quero um lugar onde meus olhos estariam baixos demais
pra que eu te enxergue
ou minha boca muito inclinada
ou meus braços derretendo
suando numa ansiedade patológica
...
eu estaria finalmente sem condições de perceber você
e não acho que isso seja bom
...
foi como a marina disse
que o limite da arte é a perda da nossa consciência
porque a partir dali não poderíamos mais apresentá-la
você sabe de quem eu tô falando
...
imagina então se eu perder os sentidos
minha consciência
meus instintos
o que sobraria?
será que eu ainda perceberia a saudade?
a ausência?
...
é que me sinto meio que regredindo, saca?
voltando a ser esboço
daí não tenho mais todas as funções completas, certinhas
diante de você que eu não sei mais se está me ouvindo
...
talvez você me respondesse que perderíamos a consciência
sempre
com aquelas massas prensadas
com aquelas dores nas pernas e o suor
e na cabeça como que se as coisas cintilassem, eu lembro bem
e isso bastava, isso era tudo
mas não é disso que estou falando, pelo amor de deus
...
ainda ta aí?
eu espero.

30 outubro, 2017

fumaça sensação

para sarah

talvez você não saiba, mas uns animais pedem consolo no colo de outros
às vezes ombros, peitos, costelas
e às vezes se indignam. se frustram. se decepcionam.
com os olhos encostados na arquibancada de cima
estamos nós também, de cigarrinho aceso.

não me atrevo nesses dedos que permeiam o solo frágil
apesar de ter dedos que queimam, lábios apressados, fome
não quero te fazer dormir, criança louca
quero o gloss
os brincos de argola.

mas havia pós-punk e as bandas psicodélicas de goiânia
por hora, no entando, eu apenas ouço seu bater de pernas ao meu lado
ouvindo de mim sobre a carência dos animais
deixando clara a minha própria necessidade, meus anseios
que sejamos nós dentro dessa cidade apenas obstáculos
apenas fumaça sensação.

mas você falou que carregaria na cabeça alguém bonita como eu
acredito nos colóquios subversivos vindos de bocas cheias de vinho
acredito nos beijos com sabor de catuaba
e nas arquibancadas de cimento
eu deixo passar despercebidas as perturbações
e te beijo ciente do mundo.

22 outubro, 2017

profundidade das coisas

ouça a placenta, ela dirá: o amor é absurdamente inviável. ele se verá em formas humanas, porque também é gente. mas late, entra no cio. esguicha água, molha plantações.
mas quando ele chegar, não escape.
veja. você verá, agora, que descanso.
eu tive medo, mas eu montei no mundo. eu controlei o guidom.
éramos fortes e eu pressupus que seríamos sempre, por que pra quê a eternidade senão o alívio?
e cansar devia-se ao mistério, à profundidade das coisas.

força pra aguentar esses dias que são loucos. esses dias fervem, garota. eles escapam.
e a menina roxa preta bege que não te quer de branco
ela sentirá o peso, lá, dentro da cabeça
não há amor que aguente à queda rasa.

11 outubro, 2017

a sucção do contato, teus lábios resolvem tudo

te acordei no fim da tarde, a boca pastosa
eu tenho ânsias, crateras
segui descalça pelo apartamento e o piso quente
não é o amor que se digere, você me diz
ele permanece no esôfago
deixe que o amor permaneça lá, entalado
que rasgue a mucosa
te desproteja
foda com o próprio corpo antes que
eu
senti sua boca no fim de tarde, lânguida
gosto dos impulsos dos joelhos que tocam sozinhos o piso quente
e ajoelhar-se é quase um mantra
hermético
sensorial
fatídico
eu sei do blues que é ajoelhar-se pra você
do new wave que é
e você ri da minha cara pela relação estranha com a cerâmica
somos juntas uma espécie de contato interativo
co-existentes
você está lá, intermediando.
não é o amor que desiste.
são os fins de tarde os pisos quentes os joelhos terrenos
em meio a soma das coisas, somos eu e você, instáveis
você sente falta de mim?

02 outubro, 2017

desobediência

Imagem relacionada
não sei do cabelo que tive
nem do semblante que eu tinha:
é só a epifania
o que fica do que passa

quase tudo é um só demônio
enrustido
em vestes pela vidraça
porque eu me encontrei, mãe
nas peles finas que habito

ficar em mim
estar em mim
a desobediência

21 setembro, 2017

eu deito em cima de um corpo diferente

eu deito em cima de um corpo diferente
um corpo sem resistência, atrelado
não desperta com o espanto, permanece justo
e o toque new wave abatido
eu sinto o cheiro do algodão-doce azul
em fios de cabelo imersos

just like a woman
esquece os dedos dentro das calças
eu esqueci meu peso minha cabeça
eu esqueci o tumulto
porque a outra deixou um resquício de ruína
e eu quase choro naquele peito
com cara de morte

eu te falarei da escassez
a língua cansada manchada de preto ainda assim
é uma língua bonita
esperneada
ainda que quieta
dentro da boca

no entanto partir se confronta
ao ato de cuspir no outro
longe revela-se inalcançável
intransponível
e o ranço

o ranço predomina.

18 setembro, 2017

fim de ciclo

hoje mais do que ontem, eu tenho pensado em azul
e não sei se intercalo as cores quentes se penso no seu sexo
feito borboleta de asas quebradas alguns
sentem medo da queda eu tenho medo do vento

que levou alguma coisa branda que eu via nos seus olhos deixei
quieto porque me alivia o soco na cara o deboche
quase inconsciente é o teu riso no canto da boca
que me esquece por que me esqueces se há tanto espaço na cabeça?
se há tanto fio condutor tantas veias tantos cílios que eu posso arrancar
por que me deixastes fria? e eu penso no azul
porque o céu levou as nuvens

e eu tenho um corpo aberto um lábio dolorido saudade óssea
o medo instintivo de não ver mexer teu orbicular do olho venho
estudando anatomia o corpo fala e eu entendi inteiramente
que o teu só quer silêncio
pensar como se fosses uma garrafa pet que eu poderia imprensar
contra os dentes levar comigo a língua tocando e é feito
coronário seus braços recobrindo os órgãos
de acordo com paul ekman não passa de medo tens medo de mim?

porque as coisas morrem e eu ouço seu bater de asas desesperado
o fogo dessas velas que apagas hoje é o teu fogo
eu sinto a fumaça quer viver sozinha
desculpa, eu esperava um incêndio

08 setembro, 2017

soco na boca

mistério profundo limbo crescente
eu sorrio cínica pros meninos do bairro
e atropelo pedras
não me aquieta o soco na boca o líquido grudento
adoraria chorar no peito de um piloto
e se eu te disser que meu gostar por você jamais
se tornará amor e eu te deixarei morrer seco balançando
em fio de cobre, enferrujado, diante desse doce
amargo que recuso?
não tenho pressa, amor
de me tornar puta.

28 agosto, 2017

adegas e cabelos grandes

a coisa da adega no peito
a tua voz arderá no útero
eu sei que corro
e você estará lá calibrando os pneus

seguimos
num lance bíblico amarrando as avencas
sentindo o pó das flores
abaixo dos pés descalços
enquanto teus fios
brotam volume

não quero a dor
de fingir que não vejo
os homens atolando os bois

me ensina qual pedra usar no pescoço
seu ponto de força
o breu que reje
é a nudez que escondo:
entre
com as pedras de xangô nas mãos

a cor
a nossa cor
que a paleta não mostra

19 agosto, 2017

suor choro esquecimento - parte 1

mais tarde eu deixarei que morra em mim o aspecto violento do teu rosto
ele hoje é quase como as teias que fazem e se desfazem ao longo de uma parede de cal
eu desapareceria para que desaparecesse junto os sois
veja bem: eu não sei que cara tem o atlântico
mas ainda assim eu me afogo.

olhar para trás é tão inútil quanto agarrar-se aos calcanhares de quem flutua
teu despejo é quase um cuspe
e viver como ciganos numa terra imóvel, preocupa-me
te tenho na cabeça como parte da pele, abaixo das sobrancelhas
e você não aparece no reflexo, como se não existisse
mas todos nós sabemos que está ali na guerra, ainda que exausta,
o amor debaixo da terra
junto às minhocas, se alimentando das folhas
permanece teu suor
como parte de um organismo.

tão sensato quanto deixar que morra em mim qualquer coisa viva
é deixar que permaneça a dor do parto
enquanto sangra a placenta,
dorme mais cedo o que é prematuro
e o sol gravado no teu rosto, desaparece.

e eu busco o gesto que doei aos centros
ficou qualquer coisa gelada que derrete muito lentamente
e os carbonos não ajudam.

não tema em mim o gosto do escândalo
eu sou quieta, como um lago
e meu grito sucumbe aos reflexos solares que você emite
e emite essa árvore genealógica
arrancada com machados
por essas mãos perplexas/suadas
onde deito a cabeça.

01 agosto, 2017

amor-fúria

depois eu fico olhando pra você como se fosse um poço. aqui, agora e depois, você de banho e rumo tomado. burguesinha eclética, o vermelho do meu sangue na cor da tua camisa, o preto fosco dos teus cílios na ponta dos meus dedos, meu corpo e teu corpo assim azul-montanha, carregado. aos homens que passam distraídos eu direi esse amor-fúria, o sufoco, gesto-medonho-enclausurado-que-é-essa-vontade-irremediavelmente-grotesca de tocar você, como se fosse uma dessas decorações de interiores. eu cuspo nessas beiras de buraco, gosto da palavra morte, e fico rondando pelas circunferências onde você fica, um tipo feito compasso. mexo no nódulo que é esse coração -e soluço, nunca sequer toque no meu ombro caso me encontre paralisada, estive assim na falta de coragem de acordar os músculos, não olhe pra mim, não me veja assim perplexa. eu nunca aguentei o peso do fim, é como dormir com búfalos. esse amor-fúria que senti por você, e que agora quase se esvai, de uma burrice escandalosa, me deixa a mercê da queda, da fragilidade da casca de um ovo. a saudade, esse estar sentenciado, e chorar quente todos os dias como se a febre fosse interna e talvez seja esses estados completamente convulsionais de saudade. pensar que coisa louca que é estar sozinho e lembrar que jamais estarei porque você está aqui dentro, provavelmente entre os pulmões.