depois eu fico olhando pra você como se fosse um poço. aqui, agora e depois, você de banho e rumo tomado. burguesinha eclética, o vermelho do meu sangue na cor da tua camisa, o preto fosco dos teus cílios na ponta dos meus dedos, meu corpo e teu corpo assim azul-montanha, carregado. aos homens que passam distraídos eu direi esse amor-fúria, o sufoco, gesto-medonho-enclausurado-que-é-essa-vontade-irremediavelmente-grotesca de tocar você, como se fosse uma dessas decorações de interiores. eu cuspo nessas beiras de buraco, gosto da palavra morte, e fico rondando pelas circunferências onde você fica, um tipo feito compasso. mexo no nódulo que é esse coração -e soluço, nunca sequer toque no meu ombro caso me encontre paralisada, estive assim na falta de coragem de acordar os músculos, não olhe pra mim, não me veja assim perplexa. eu nunca aguentei o peso do fim, é como dormir com búfalos. esse amor-fúria que senti por você, e que agora quase se esvai, de uma burrice escandalosa, me deixa a mercê da queda, da fragilidade da casca de um ovo. a saudade, esse estar sentenciado, e chorar quente todos os dias como se a febre fosse interna e talvez seja esses estados completamente convulsionais de saudade. pensar que coisa louca que é estar sozinho e lembrar que jamais estarei porque você está aqui dentro, provavelmente entre os pulmões.
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01 agosto, 2017
16 julho, 2017
nota sobre o peso da maré
geralmente é forte. tenho medo de não conseguir mais olhar pra ela. feito o vento de agosto, eu sei que está ali porque me toca como toca as folhas de uma árvore; me derruba como derrubaria as folhas de uma árvore em crescimento. não posso me permitir andar descalça nesses dias, sinto medo do chão que piso. eu poderia voar no vento dela, que bate em outra porta e abre outra porta, arreganha janelas e enferruja trincos; talvez ela se assemelhe mais a algo vindo do mar. e eu não pesco, porque talvez eu não aguente o peso da maré.
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Eu (quando me vejo),
O que se deu em algum momento
05 julho, 2017
meu quintal
toda vez que penso em você eu sacudo a cabeça num gesto medonho e nada acontece. penso em gritar que quero sentir tudo de novo -amor, medo, ciume- sem que me ouça e me veja com seus olhos de rímel. a sua boca de cigarro e menta e saliva e vinho barato que num cuspe tocam o chão e eu sequer nunca senti. nessa testa que você beija eu já quis seu ombro sem culpa e tenho que tocá-lo sempre, a cada instante, ainda que eu crie reação alérgica, tocar seu ombro porque você foi meu carma; esotérica eu te digo que nunca me deixe. é fraca a carne, o lóbulo da minha orelha treme e meus ossos enfraquecem, eu sinto a vertigem, o refluxo. quero poder sussurrar no seu ouvido e sentir o quente das coisas; sem corpo, líquido, língua, beijo, sentido -só você na minha frente ouvindo que meu amor por você é mais loucura que verdade.
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O que se deu em algum momento
08 maio, 2017
Olhos de despejo
Menina,
signo bruto frente à
precariedade dos homens.
Gosto amargo no queixo, sem notoriedade. Os sulcos do seu corpo eram fiéis às aberturas dos meus dedos. Sabíamos do poder do encaixe das fivelas e das unhas removíveis; éramos de terra e massa de modelar. A mulher do ciclo do ouro, cílios circenses, tímidos joelhos que agachavam em câmera lenta, lúcida. Pequena menina lúcida e ainda assim de pés gigantes, pavorosos em pedestal. Eu não tive direito àqueles olhos de despejo.
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Miss lisergia,
O que se deu em algum momento
02 março, 2017
de quando é carnaval e eu nem percebo
parada diante da parede e a dor que corrói, feito verme. há umas festas do lado de fora, as pessoas são sempre felizes fora de casa, onde há luz e estradas de paralé. eu sinto saudade. decididamente, eu ligo o chuveiro quente ao calor do meio dia e sinto saudade. pra que pareça verdade e a queimadura apareça forçada na pele seca, sem o cheiro e a saliva pra limpar com guardanapo. e há sempre também uma angústia ao alcance do olho; as próprias mãos oleosas que esfregam as pálpebras e arrancam com força um punhado de cílios pra fazer o mesmo pedido várias e várias e várias vezes, incansavelmente, que venha também ao alcance do olho. que apareça pra mim sem disfarce. e queria logo atravessar os fios do cabelo até o ouvido e sentir mais uma vez algo grandioso e sentir sempre porque o sono chegou e ele quase sempre chega, apesar de tudo.
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Miss lisergia,
O que se deu em algum momento
05 janeiro, 2017
vejo melhor nossas fissuras
de repente, por vezes um pouco menos que de repente, a dor se arreganha na minha cama. quero que a dor se satisfaça sozinha, não ouso tocá-la. eu ando amando cada pedacinho de você, do outro, que é quase o mesmo que enxergar meu próprio corpo, só que de longe. de repente, você ofusca a dor, ignora. não mais coxas vazias entre os meus lençóis, não mais o perigo alinhado. difícil permanecer quieta diante do pensamento sobre a eternidade, se enquanto teu organismo pulsa, o meu se enfraquece. é com as fissuras nos dedos, os ressecamentos nos lábios, a tontura e a náusea, que eu me ergo. perceber você adentrando cada vez mais escuro no meu peito, dói. física e gradualmente, teus pelos mais finos pesam como lâminas. porque você me corta fundo e eu deixo. mas te amo sem contato, sem te ver de lentes 50mm, com as quais eu aproximo teu corpo numa vista analógica, e te faço nos ferir, nesse amor escandaloso.
29 dezembro, 2016
oi pedro
Oi pedro
estou meio confusa, pois não sei mexer direito nesses aplicativos de bate-papo. aqui não aparece você, será que você mudou de nome? todos vão dizer que meus textos são falsos e que uso pseudônimos porque teu nome é muito comum. mas tudo é muito comum, você não acha? pedro, o carinha da cantina me perguntou por onde você anda -e eu disse não anda- e me ofereceu um sanduíche natural com creme de ricota. eu aceitei o sanduíche porque é a nossa comida preferida mesmo que enjoe e eu pensei que o bom de enjoar às vezes é que a gente não enjoa nunca. você ainda ta usando aquele isqueiro cor de grama ou já acabou? eu sei que tava difícil de parar, desculpa. deixa só eu te dizer que aquela banda que eu tava gostando vem cantar no meu bairro e eu não vou poder ir porque aquela rua cheira a maconha, foi o que meu pai disse. o poeta que mais parece com você é o allan jonnes e o poema que mais parece com você é aquele sobre a catuaba, da regina. por que você não volta pra gente respirar um pouco com nossos novos piercings no septo? nada é mais podre nessa cidade que cheirar aço. o avião vai partir em alguma horas. ainda vou usar aquelas plaquinhas com teu nome pra você me identificar quando eu cortar meu cabelo. me diz que é você fazendo sombra aqui atrás da porta antes que eu desista.
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Pedro esta cantiga não fala de amor
10 agosto, 2016
azul-turquesa
posso mesmo falar um palavrão?
puta que pariu, meu senhor, como eu poderia saber que acabaria desse jeito? tudo bem, eu vou tentar não emendar tudo. quando me pediram pra fazer um troço que eu precisaria falar muito e um outro rapaz precisaria digitar tudo o que eu falasse, por sinal, muito bonito aquele moço de pulôver marrom, me disseram depois que o teclado dele tinha dado uns problemas e algumas letras não funcionavam, o que quero dizer é que boa parte do que falei, saiu errado por culpa do teclado e o rapaz, tadinho, nem percebeu. apesar de um bom tempo esperando ajeitarem tudo e ter que passar pelo mesmo procedimento duas vezes, eu não o culpo. ele me chamou pra sair depois da agonia, nordestina e umas cervejas. ah, mas não é isso que quero dizer, desculpa. na verdade é sim, só não posso, adoraria continuar falando do quanto aquela barba bem feita me impressionou. não sou de dar elogios, assim, de graça, o tempo todo, sem receber gratificação, mas isso, vocês sabem, e é o que eu devia ter falando desde o início, eu sei, me perdoem mas é que se vocês não mandarem eu calar minha boca, passarei o dia inteiro falando sem me importar se estão prestando atenção ou não. ok, ok, assim, um rapaz de branco, e eu só percebi que ela tava todo de branco depois de umas abaixadas que ele deu na minha frente, deu com a mão assim pra mim enquanto eu andava na rua quarto-setenta, umas oito horas, o que eu estava fazendo às oito da noite perto da fronteira? bom, eu me mudei pra uma rua, quase um beco de tão pequena, e assim, faz uns meses que não fumo, sabe, tabaco, claro, o senhor acha que eu estaria fumando o quê? e tive um troço estranho, vi na internet uma forma de deixar o cigarro pendendo pra baixo, sem cair, e se você batesse a piúba ficaria mais presa, daria pra passar mais tempo fumando, o senhor entende? e eu quis testar isso imediatamente. só tinha lojinhas abertas perto da fronteira, assim, nada clandestino eu acredito, mas abertas essa hora o senhor queria que eu fizesse o quê? aí, então, esse rapaz tava lá na esquina da quarto-setenta, usando umas sandálias tão bonitas, eu quis encostar nele só pra ver melhor aquelas sandálias azul-turquesa, e a minha sorte, eu pensei na hora, é que ele deu com a mão assim pra mim como se chamasse um ônibus apressado, ele não gritou nem nada, só fez uns giros com os dedos, uns gestos que, minha nossa senhora, eu não esqueço nunca mais. ele perguntou se eu tinha isqueiro, e, claro, me acostumei a vida toda a andar de isqueiro, mesmo quando não fumava, pra emprestar assim às pessoas que me param na rua, contidas, e pedem por favor, bicho, faz uma concha aí pra eu acender esse negócio. mas eu saí tão apressado-agoniado-desdentado de casa que mesmo isso eu esqueci. aí eu falei assim pra ele que minha casa ficava a umas quatro ruas daqui e perguntei se ele não queria passar lá comigo pra eu emprestar meu isqueiro. mas, meu senhor, qual o problema ele ser um estranho? era só entregar, acender, pá, pum, foi-se embora a sandália mais bonita que vi na vida. mas não foi isso que aconteceu, graças ao senhor, pensei cá comigo, o rapaz olhou pra mim depois que fomos e acendemos o cigarro dele, o meu cigarro, a gente sentou nuns banquinhos de madeira na porta de casa, ele colocou a mão na minha coxa o senhor quer mesmo todos os detalhes? pois então, ele pegou na minha coxa sem apertar nem nada, só pôs a mão assim como se quisesse sentir que eu ainda tava ali aí eu comecei a reparar que ele talvez estivesse bêbado e talvez eu quisesse que aquela mão apertasse com força por entre as minhas coxas, devagarzinho assim, como se não quisesse apenas a minha coxa dentro das mãos. olha, me desculpa, eu nem me sinto tão a vontade assim pra falar disso mas a questão é que ele olhou pra mim, um olhar de fome, digo, eu tive até medo naquele momento mas ele olhou tão estranho e tão bonito de uma forma, ele pediu pra chupar meu pau. assim, direto, na lata: posso chupar seu pau? eu quis dizer que não, que não dava. tava tarde, tenho muito trabalho amanhã mas a verdade é que não tava tarde, eu não tinha nada pra fazer amanhã e é claro que sim, claro que dá, pode ser agora? aí ele fez lá mesmo, no banquinho de madeira, eu ainda senti uns fiapos na calça entrando assim de lado, ele perguntava se tava bom já que eu não falava nada, eu só olhava pra quela sandália azul-turquesa e aquele homem todo de branco levantando a cabeça debaixo de mim. ele tava bêbado mesmo, meu senhor, eu só consegui perceber o cheiro e a cor vermelha de vinho no meu próprio pau, ficou assim por um bom tempo. mas ele, ora, ele foi embora logo em seguida, levou meu isqueiro, não me falou mais nada. como eu não percebi o fogo na minha calça? o fogo tava dentro da gente, meu senhor, você consegue entender? aquela quentura veio vindo pelas minhas pernas eu imaginei qualquer coisa, uns cuspes em temperatura elevada, jamais fogo, jamais chama, jamais aquele homem bonito queimando o meu corpo. deixei que viesse tudo, deixei minha pele arder toda pra saber se era real. e foi, né, claro que foi. o melhor de tudo, meu senhor, já dá pra saber? agora, da próxima vez que eu olhar aquele homem de branco na minha frente, vou estar sempre sentado, mais perto das sandálias dele.
14 junho, 2016
Todo fogo é santo
arregace. não venha com carinhos, chamegos, afagos baratos. meu abraço é com o corpo inteiro, meu beijo não tem só lábio. não me confronte. não me estresse. não me subestime. sem cara feia, não tropeço em gente aporrinhada, mal amanhada; eu me defendo com baladeira. castigue. sem pena, sem asa, sem voo. venha com sua fuleiragem devagarzinho, na manha, arrastando a voz no pé do ouvido, esticando a língua no canto da boca; venha parando e arregace. venha, mas venha no fôlego, a gente se achega em qualquer cama pequena de motel barato ou em qualquer rede da minha sala de estar. língua na orelha pra mim não é só charme, aceito braços fortes nos quadris e unhas encravando as minhas costas como qualquer utensílio viável. meu corpo foi feito pra você encostar. caso o fira, eu não me importo. se debruce em mim; me ponha na tua lista do mercado; garanta minha vaga na tua cama; me deixe umas nudes vezenquando e se vicie em mim sem diagnóstico pessoal; me fode, de preferência sem compromisso, sem gatos nem filmes franceses. minhas coxas são suas, minha língua te cobre e eu prometo nem fazer alarde se você vier.
27 março, 2016
Notas sobre fazer 'sim' com a cabeça

Garrafas e mais garrafas de vaselina na minha bolsa. Mais uma vez a vizinha de baixo foi reclamar com o síndico. Grita demais essa vagabunda, toda dia um novo cliente que sai sem pagar. Cigarros, gemidos, um ranger de madeira e a música mexicana ao fundo, às duas da manhã. Venho tendo umas dores nas costas, às vezes adoeço em febre por causa dessa bunda fodida que preciso dar toda noite. Quase sempre a gente se acostuma com o desmantelo. Mas agora mesmo, olhando os santos pregados na parede por que mesmo que não existe nenhum santo protetor das putas, vadias em geral? Estou de férias, descansando a bunda nessa almofada indiana que comprei no camelô ainda que a metade do preço de duas noites. Faz dois meses que não tenho um orgasmo daqueles de encravar a unha na parede e bater com a cabeça na madeira da cama, hoje o que mais me excita é ler Bukowski, garantindo minha fase culta com cigarro barato, uísque barato, seringas baratas, vida barata essa minha, contando cheques pré-datados pra não morrer de fome. E venho morrendo, só garanto mais gemidos enquanto meu pulmão funcionar.
Quem não morrer que escape, já dizia meu pai, me encarando. Mas ele não conseguiu escapar, me deixou a mercê de viadutos e viaturas, de praxe eu aprendi a viver sozinha. Nunca fui beata, já fiz de tudo nessa vida, até boquete pra deputado eu paguei; já fui Geni pra pai e filho; desembolsei centenas e perdi tudo em pôquer; produtos suíços; quebradeira dentro de casa com banheira nova; bunda feminina na minha cama, eu nunca gritei alto pedindo amor, nunca deixei que viessem bater na porta. Continuo oferecendo meu corpo pra quem precisar, órgãos, saliva, decepções; ofereço meu braço inteiro se tiver afim de vomitar. Já quase morri cinco vezes, de fome, de espancamento, de sífilis, gonorreia e de amor. Escancarei meu peito e me fodi. Escandalizei os putos na vitrine, garantindo minha fase 'coração partido'. Mas porra, eu posso ser cafetina, filha da puta -ou a própria-, posso rasgar qualquer pele com minha unha vermelha. Não peço que tenham pena de mim, pelo amor dos deuses, não peço que chorem ao meu lado. Não quero que espalhem a porra do meu sofrimento externo.
Mas a verdade, a verdade mesmo, querido, é que não consigo fazer nada disso, sofri horrores por uns palavrões que falei no seu ouvindo, uns tapas que dei no seu peito. As melhores fodas que tive foi com você, eu já te revelei? As melhores transas em pé, melhores danças ao som de sax com a língua, eu devo ter alguma coisa em Câncer, não acha? Capricórnio com o restante em Escorpião, mas com certeza âmago canceriano. Ah, mas eu nunca me importei em saber que vinham até mim por necessidade, sempre soube, necessidade carnal, de ser, de sexo, de dor, de suprir calejamento... eu estive -e estou- aqui fazendo 'sim' com a cabeça pra você. Pra eles. Pro restante da humanidade.
14 março, 2016
Nu
Quando se abre a porta do
banheiro pra alguém entrar é generosidade demais ou apenas amor? apenas, apenas
e só, eu repetia, é um pouco de loucura confundida. Com o quê eu descobriria
mais tarde. Eu deixei que a moreninha
entrasse na minha frente, eu diria um pouco sarcástica que moreninha
contrariada é essa que me empurra contra a parede? Eu esperava a limpeza com a
língua do meu corpo sujo, vulgar e disfarçado no tecido molhado. Endurecidos,
pedintes, seios fartos em boca conhecida que não bate pra entrar, só pede e
clama em silêncio porque veja só o barulho externo é o que mais excita. Tão
iniciante, tão aberta, descendo junto a corrente sanguínea. profunda, encharcada
de suor alheio, endureceu junto com o que havia de mais rijo no meu corpo. eu diria
até que a parede conversava com a palma das minhas mãos grudadas quando não
puxavam os fios do cabelo castanho. Coxas se camuflam involuntariamente automaticamente
vencidas de cansaço ou é o corpo querendo se esconder no outro? Então que
completamente involuntárias as coxas morenas se revezavam entre descidas e
subidas o quão é difícil e injusto definir o próximo movimento. Estendi-me em
todos e o gosto salgado na minha boca não avisa quando quer passar. Súbita,
paralela, olhos castanhos na minha pele nua também marrom e vencida, entregue. Me
viciei naquele corpo suado de pernas abertas e ofegante, não dava pra
continuar. Ainda encaixei fundo, pra quê, afinal, se adiantar numa explosão já
esperada? Politicamente incorreta e diga- se que romanticamente também,
respeitei as minhas lágrimas e profanei toda a nudez desconhecida. Alarmante, o
corpo implorou repouso, eu soube dar minha carência pra menina prender no
peito. Foi amor, eu sussurrei em seu ouvido, porque foi forte, doeu, mas não me
fez chorar.
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Eu (quando me vejo),
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O que se deu em algum momento
28 fevereiro, 2016
Bêbado escorpião
Enquanto você me diz que amanhã será o dia em que eu deitarei, jogada, na garagem de casa, eu estou sentada no ônibus onde a luz da frente não me ilumina. As pessoas ficam tão bonitas no breu, eu explico. e você diz que nada a ver. pra quê falar da beleza das pessoas enquanto eu poderia estar falando da sua? mas eu peço silêncio pra descer no ponto enquanto economizo o trabalho das minhas
coxas pra hoje à noite e quase caio. quase deixo sua voz ecoando na estrada quente de verão. O sol queima tudo na minha cabeça e eu não te peço compreensão alguma. Só peço que me foda hoje e amanhã, enquanto me jogo no chão da garagem. eu só peço que percorra minha calça preta com o queixo e se apoie com o nariz na minha barriga. Eu devia ter andado mais a pé, eu devia ter esbarrado nas pessoas à sua procura, porque se fosse pra te encontrar o caminho seria menor. por isso eu andei, andei, andei enquanto você brigava comigo por andar bêbada na rua e, que loucura, o sapato se esforçando pra sair do meu pé. Eu não perdi minha sanidade, menina. ao ver seu corpo no portão, eu não penso em mais nada pra apertar contra o meu peito a não ser você e colocar a palma da minha mão na sua cabeça como se fôssemos dois viados e é o que na verdade nós somos, agarradas no portão. Me fode, eu pedi mais uma vez. E você disse que sim, que claro, o que você quiser. eu vim correndo porque me deu saudade da sua boca, eu desci na parada errada pra poder sentir o rosto no vento e imaginar que o mesmo vento batia no seu. e se eu deixo você me encostar nessa sua parede áspera e fria e molhar todo o meu pescoço com sua língua tácita é porque eu sinto amor e é demais. eu sinto tanto, e você também sabe que sou uma amante da metalinguagem, mas não consigo, não sei
explicar o que acontece. E como faz? Esse negócio de andar em linha reta, como faz? Me explica como dar um passo reto sem pensar em você e não cair. Aí você me diz que também tem amor pra mim e jack daniels me esperando. A minha arquitetura preferida é o teu corpo, então eu peço mais uma vez que me foda. que se eu corro todos os dias é por você.
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O que se deu em algum momento
25 fevereiro, 2016
anotação sobre Layla
“hoje eu tive que chorar, porque me doía
saber que talvez eu não soubesse de nada.
me doía você às vezes, de madrugada, ouvindo cazuza e se esquecendo de mim.
me doía seu sono pesado que sempre precisava de um porre pra acontecer
e os nossos versinhos que se perderam no vento e os nossos passos que o mar
apagou. por deus, como você se desfez rápido na minha xícara de café...”
me doía você às vezes, de madrugada, ouvindo cazuza e se esquecendo de mim.
me doía seu sono pesado que sempre precisava de um porre pra acontecer
e os nossos versinhos que se perderam no vento e os nossos passos que o mar
apagou. por deus, como você se desfez rápido na minha xícara de café...”
13 fevereiro, 2016
Forca ou "Rosto e Resto"
- Então qualquer coisa, grita.
- Você não consegue, né?
- O quê?
- Se despedir sem falar depois.
- Isso é algum tipo de crime?
- Hediondo.
- Quero você.
- Não começa. Eu preciso ir.
- Fica. Fica pra eu te dizer o quanto sua bunda me lembra a maior estrela do céu.
- Quê?
- São só três horas.
- De pavor e angústia.
- Olha, se você ficar até amanhecer, eu juro que.
- Que?
- Eu juro que eu não me mato hoje.
- Nem amanhã? Nem nunca?
- Nunca é tempo demais.
- Eu vou desligar.
- Tudo bem, nem nunca. Nem se a corda não soltar.
- Que corda?
- Nem se a vodca acabar.
- Você não bebe vodca, louca.
- E como pode ter certeza?
- Você cheira a vinho barato.
- Ah, é?
- Eu adoro quando você tá bêbada. Você fica se esfregando em mim. Digo, o rosto em mim.
- O rosto e o resto.
- O rosto e o resto.
- Eu acho que eu quero morrer nova. Que nem o Ian Curtis.
- Você jurou, poxa.
- Desculpa.
- Que Ian?
- (...)
- Que Ian?
- (...)
- Você não consegue, né?
- O quê?
- Se despedir sem falar depois.
- Isso é algum tipo de crime?
- Hediondo.
- Quero você.
- Não começa. Eu preciso ir.
- Fica. Fica pra eu te dizer o quanto sua bunda me lembra a maior estrela do céu.
- Quê?
- São só três horas.
- De pavor e angústia.
- Olha, se você ficar até amanhecer, eu juro que.
- Que?
- Eu juro que eu não me mato hoje.
- Nem amanhã? Nem nunca?
- Nunca é tempo demais.
- Eu vou desligar.
- Tudo bem, nem nunca. Nem se a corda não soltar.
- Que corda?
- Nem se a vodca acabar.
- Você não bebe vodca, louca.
- E como pode ter certeza?
- Você cheira a vinho barato.
- Ah, é?
- Eu adoro quando você tá bêbada. Você fica se esfregando em mim. Digo, o rosto em mim.
- O rosto e o resto.
- O rosto e o resto.
- Eu acho que eu quero morrer nova. Que nem o Ian Curtis.
- Você jurou, poxa.
- Desculpa.
- Que Ian?
- (...)
- Que Ian?
- (...)
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10 janeiro, 2016
as bundas são místicas, eu dizia.
que bunda bonita, ela disse,
tudo que é bonito me dá uma dorzinha no coração e eu choro.
mas a sua, além de meio grande e meio redonda e meio pra cima, me lembra umas fotos antigas daquela tribo, eu vou lembrar, os nambiquaras, que parece que estão sempre sorrindo, mas sofrem, sofrem. e eu não sei mesmo o que a sua bunda tem a ver com sorrisos, sofrimento e índios de rondônia, mas eu diria, meu amor, que as bundas têm algo de místico e espírito e saudação. saravá, meu bem, saravá. que os deuses protejam isso aí que você carrega, pois deve ser realmente pesado. não, não bebi. falo sério, há tempos que não ando mais perdida, você sabe. mas é que tanto tempo assim sem te ver, tanto tempo que eu não ouço sua voz dizendo que, claro, assim mesmo, que me ama e que me viu escorregando dia desses, naquele tempo em que éramos tão ingênuas e vivíamos agarradas, mas eu tava dizendo que depois disso tudo, depois de poder me agarrar em você de novo, como se eu fosse uma ativista e você uma árvore enorme, esperando pra ser derrubada, eu precisei cheirar alguma coisa, eu precisei da fumaça, você entende? eu sei que sim, eu sei que você também precisou disso. e de mim. e de um cangote como casa de praia no fim de semana. mas eu realmente estive aqui o tempo todo, no centro do nevoeiro.
agora com você olhando pra mim, eu lembro de tanta coisa e eu gostava tanto de você que esse sentimento todo era parecido com quando minha cadela lambia meu pé, que é um troço meio estranho mas eu digo "não para não, fica mais um pouco". e eu gostava tanto de como quando você escolhia uma parte do corpo e resolvia demorar. mas antes era antes e hoje você é melhor, hoje você nem sequer vai embora. hoje a gente dorme no mesmo chão e divide do mesmo frio e vive no mesmo silêncio e carrega o mesmo peso de ser. hoje você pesa nas minhas costas e chove no meu peito. e eu tô tão clichê agora, há dois anos eu estaria escrevendo sobre como seus peitos são maiores e mais redondos e mais juntinhos e eu ainda digo que eles cabem muito bem entre os meus. e a verdade é que o seu corpo todo cabe muito bem no meu corpo todo e o teu silêncio faz um barulho danado quando eu paro de falar. a gente se encaixa que nem fone em ouvido pequeno, vive caindo mas a música faz lembrar que um foi feito pra ficar dentro do outro.
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05 janeiro, 2016
Carnaval
Para sentir o mar, leia em silêncio.
Elas eram tudo entre saliva e suor. Essa mistura que caía em todo pescoço e descia até o seio, que molhava toda a barriga e só parava lá embaixo. Mas tinha roupa e uns tecidos grossos e uns jeans apertados e um amor de iniciante e as duas que mexiam, mexiam, mexiam. Uma de cabelo no ombro e a outra de ombro caído. É amor, uma dizia. E grave, a outra respondeu. Elas vinham vindo atrás do bloco, elas mesmas que faziam o próprio carnaval. Os corpos morenos das duas -e um "delícia" que se ouvia de quem passava- grudavam feito super bonder em pelo de braço. Se soltasse, era pior; e se puxasse, não saía. Da lata, a cerveja descia pra garganta e as deixavam completamente tontas; agarradas, bêbadas, pra não cair. E caíam. Caíam fundo e esfregavam o rosto uma na outra e cheiravam o perfume vencido na nuca e lambiam da boca à orelha. Somos fortes, uma dizia. E gostosas, a outra respondeu. Bêbadas-loucas-drogadas, mas gostosas. A música era um negócio de frevo que caía na noite e ninguém parava de dançar. E elas dançavam feito bandeira levantada em redemoinho. Foram levando assim até a praia, um litoral charmoso, com luz pouca e pouca gente. Gente. Esse troço louco, mas que dói no coração.
Correram; sem força física, só a coragem de mergulhar na areia e deitar na água e subir na coxa de uma pra que esta pulasse e se agarrassem pelo pescoço. Quase caíam, quase sangravam, quase morriam, quase, quase. Caíram deitadas na areia, mãos coladas e vidas coladas. E a música ao fundo, voz e violão "...meu coração bate e você não ouve, ele bate e você se esconde, ele bate e você não responde. meu coração desiste e você abre a porta. tem borda tua que eu ainda nem encarei." Amanheceu e nem tinha mais corpo que aguentasse e sexo que fizessem e cerveja que entrasse. E foi assim que pela primeira vez, uma sorriu no meio do choro encharcado da outra. Amo você, uma dizia. Pra caralho, a outra respondeu.
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17 dezembro, 2015
saudade
Sonhei com você hoje. na análise, eu tive que parar de olhar para o quadro na parede porque ele me lembrava seus dedos. ainda que o desenho fosse várias folhas cainho no chão, aquele marrom -quase preto- me lembrou suas unhas. aquelas de quando você convivia bem com a dor. a assinatura, no canto esquerdo do quadro, me remeteu a uma carta que você ficou de me entregar e que nem ao menos me lembra pra eu voltar a cobrar o que me pertence. você nem me lembra que eu poderia existir numa folha de papel. ao lado do divã existe uma janela que nunca está aberta -talvez por medo de que os pacientes resolvam pular do sexto andar- e que é coberta por uma cortina cinza que me faz pensar na falta que o seu casaco me faz. eu só ando dormindo de bruços porque já não encontro seu perfume antigo pra dormir de conchinha. eu ando muito desolada sem você. eu ando, ando e acelero e começo a correr pelo quintal e dou voltas pela cozinha pra esbarrar em alguma planta e bater em alguma quina pra, quem sabe, sentir uma dor maior que a que você me causa. pra me preocupar mais com o sangramento no joelho que no que diabos você está fazendo em casa. pois sim, eu sinto saudade.
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09 dezembro, 2015
Ela faz amor por telepatia

Bem compacta, pra não utilizar apelidos como pintora de rodapé, que poderia ser colocada num pote, ou melhor, num pequeno depósito de uma padaria porque ficaria mais perto das coxinhas. e fala baixo, pouco e muito discreta. isso quando não aparenta querer gritar o peso da garganta. tem o pé pequeno, o nariz pequeno e o olho pequeno e é tudo pequeno nela, menos o coração. ah, e o lábio inferior também que é uma maravilha. chora. eu não sei como, mas chora. deve ser bem baixinho também, muitos soluços. está sempre nos dois extremos, muito ou pouco. nada transparente, é preciso bater muito pra ela abrir. e tem um estilo sensato, de quem pensa muito porque deve ter medo ou porque só tem preguiça de tentar. deve estar ficando surda, ouve muita coisa e conhece muita coisa e abraça com as duas mãos no pescoço ou uma no pescoço e a outra na cintura, mas nunca as duas na cintura. e é bem forte, ainda que bem magrinha. e é bem doce, uma delícia de ser humano. bonita. as papilas da língua grudando no céu da boca e o sopro frio, um sussurro, uma verdade amiúde: bo-ni-ta. tem um toque firme, aperta com todos os dedos e arranha com todos os dentes e beija com o corpo grudado. ama no segundo mês, mas nada diz e nada mostra antes de sentir os pés seguros na canoa de alguém. tem os lábios grossos, tão vermelhos que os vasos sanguíneos parecem transbordar e, ainda que todo ressacado, é gelado e tem gosto de menta. ou de canela. ela é toda adocicada, mais pelo que sente do que pelo que come. transtornada. segura em qualquer barra ou em qualquer braço ou em qualquer vento, com medo de cair e gostar de ficar no chão. não tem um repartido de cabelo igual, nunca. às vezes ela põe pra esquerda, às vezes ela põe pra trás e nunca sabe o que fazer com o resto dos fios soltos quando ela consegue amarrar. afinal, nunca sabe o que fazer consigo mesma. dorme bem, mas deve dormir melhor na cama dos outros. e deve sorrir muito quando abraça forte e deve chorar mais quando está sozinha. tem um nu frontal delicioso. fica. analisa sempre quando deve chegar e quando deve ir embora, mas sempre diz que vai partir na hora errada. fica mais um pouco. e deita sempre com um braço agarrando a cintura, pra sentir melhor as costelas e deixar todo o peso no peito pra sentir melhor o coração. ela tem um jeito de quem ama fácil, mas não se entrega pra qualquer um. e um jeito de quem busca a claridade, mas está sempre brilhando no escuro. e um estilo de quem sofre horrores, mas tem na ponta dos lábios esticados uma felicidade que me ganha fácil. ela me tem. e eu já me sinto diabética do quanto já me acostumei com sua doçura.
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Miss lisergia
27 novembro, 2015
No céu da sua boca
-O que é isso preto no seu sutiã?
-Isso o quê?
-(...)
-Espera, você tá olhando pros meus peitos?
-Posso?
-Pode pegar, se quiser.
-Como assim, posso pegar?
-Você pode encostar mais em mim, tá longe.
-Mas você nunca me deixa pegar nos teus peitos.
-Porque eu nunca estive muito afim de transar na rua.
-Existe um muro de Berlim entre transar e pegar nos peitos.
-Existe uma linha tênue entre pegar nos peitos e transar.
-Eu só quero pegar nos teus peitos.
-Não quer transar comigo?
-Hoje não.
-Hoje não?
-É.
-Nós estamos trocando um pouco os papéis, você percebe?
-Eu percebo um troço preto no seu sutiã.
-(...)
-Posso tirar?
-Meu sutiã?
-O troço preto.
-Pode.
-Não consigo achar.
-Mas você está há horas olhando pra mim.
-Não consigo achar meu isqueiro.
-Sempre achei que a louca fumante nessa história seria eu.
-Não sou louca, tampouco fumante.
-Você larga minha boca pra fumar esse cigarro podre.
-Respeita meu cigarro.
-(...)
-Você fica muito bonita reclamando.
-Não adianta.
-Você sente ciúme do meu cigarro. Você sente ciúme de tudo.
-Coloca a mão aqui.
-Aqui onde?
-Coloca logo.
-Mas você não vai sentir nada com esse jeans no meio.
-Você não sente quando eu coloco?
-Sinto porque você faz com força.
-Você faz devagarzinho.
-Tenho medo de te machucar.
-Você machuca mais meu coração que minha vagina.
-Não vamos falar sobre isso.
-Não vamos falar sobre isso.
-(...)
-Para de morder aí, vai logo pra boca.
-Gosto de ficar aqui. Deixa eu ficar aqui.
-Deixo.
-Deixa eu sentir seu coração.
-Deix... Você tá se aproveitando.
-Você me conhece.
-Você só pensa em peitos?
-Eu penso em você. Eu gosto de você mais do que eu gosto de peitos.
-Você vai me fazer chorar.
-Chora.
-Não. Quero transar.
-Hoje não.
-Hoje não?
-É.
-Então eu vou chorar.
-Você nunca chora na minha frente.
-Você que nunca percebe.
-Teus olhos brilham tanto, parece que você tá sempre querendo chorar.
-É possível. É provável.
-Eu acho bonito.
-Meus olhos?
-O jeito que você me olha, quase chorando.
-(...)
-Eu queria tocar no céu.
-Que céu?
-Da sua boca.
-Transa comigo.
-Deixa só eu tirar esse troço preto do seu sutiã.
-Deixo.
-Isso o quê?
-(...)
-Espera, você tá olhando pros meus peitos?
-Posso?
-Pode pegar, se quiser.
-Como assim, posso pegar?
-Você pode encostar mais em mim, tá longe.
-Mas você nunca me deixa pegar nos teus peitos.
-Porque eu nunca estive muito afim de transar na rua.
-Existe um muro de Berlim entre transar e pegar nos peitos.
-Existe uma linha tênue entre pegar nos peitos e transar.
-Eu só quero pegar nos teus peitos.
-Não quer transar comigo?
-Hoje não.
-Hoje não?
-É.
-Nós estamos trocando um pouco os papéis, você percebe?
-Eu percebo um troço preto no seu sutiã.
-(...)
-Posso tirar?
-Meu sutiã?
-O troço preto.
-Pode.
-Não consigo achar.
-Mas você está há horas olhando pra mim.
-Não consigo achar meu isqueiro.
-Sempre achei que a louca fumante nessa história seria eu.
-Não sou louca, tampouco fumante.
-Você larga minha boca pra fumar esse cigarro podre.
-Respeita meu cigarro.
-(...)
-Você fica muito bonita reclamando.
-Não adianta.
-Você sente ciúme do meu cigarro. Você sente ciúme de tudo.
-Coloca a mão aqui.
-Aqui onde?
-Coloca logo.
-Mas você não vai sentir nada com esse jeans no meio.
-Você não sente quando eu coloco?
-Sinto porque você faz com força.
-Você faz devagarzinho.
-Tenho medo de te machucar.
-Você machuca mais meu coração que minha vagina.
-Não vamos falar sobre isso.
-Não vamos falar sobre isso.
-(...)
-Para de morder aí, vai logo pra boca.
-Gosto de ficar aqui. Deixa eu ficar aqui.
-Deixo.
-Deixa eu sentir seu coração.
-Deix... Você tá se aproveitando.
-Você me conhece.
-Você só pensa em peitos?
-Eu penso em você. Eu gosto de você mais do que eu gosto de peitos.
-Você vai me fazer chorar.
-Chora.
-Não. Quero transar.
-Hoje não.
-Hoje não?
-É.
-Então eu vou chorar.
-Você nunca chora na minha frente.
-Você que nunca percebe.
-Teus olhos brilham tanto, parece que você tá sempre querendo chorar.
-É possível. É provável.
-Eu acho bonito.
-Meus olhos?
-O jeito que você me olha, quase chorando.
-(...)
-Eu queria tocar no céu.
-Que céu?
-Da sua boca.
-Transa comigo.
-Deixa só eu tirar esse troço preto do seu sutiã.
-Deixo.
04 julho, 2015
Falei, mesmo que não ouvisse
Ela, sujeita e nunca
imune, de amores inventados e tantos perdidos, dizia sentir sempre,
escorregadia e entregue, os vazios existenciais e os implantados. Não importava,
amava e se doía enquanto carregava uma garrafa de confusão entre o peito e
parava em cada esquina, esperando a noite cair. Dançava no meio das luzes
acesas e os olhares atentos e as risadas de lado; estava perto de chorar, dava
pra sentir. E chorava, chorava, chorava. A noite vazia, e o peito mais ainda,
sangrava pelas bordas e a enxia de esperança. Estava perdida, pude perceber.
Perdida e exausta da vida, colocava sempre os dedos dentro do bolso da camisa xadrez
(como amava aquela camisa vermelha de dor e cansaço) e encarava a possibilidade
de um cigarro na ponta dos lábios e a fumaça saindo e a vontade de correr
chegando.
Mas não fumava, era
o que dizia. E dizia tantas coisas que já nem dava pra acreditar, coisas como
vou parar de me autodestruir e parar de chegar ao fundo do poço sem ao menos
ter tentado. Estava sempre cantarolando Chico e repetindo que sua lei agora a
obrigava a ser feliz, mas nem sempre conseguia, nem sempre dava pra ser. E
agora que tinha liberdade, não sabia como. E eu a olhava de longe; moreninha e
sofrida, transparecia num sorriso uma ternura inconfundível e uma incerteza
surreal, mas a raiva lhe corroía sempre dentro do peito e a ternura logo
desaparecia. Esperava qualquer coisa como algum ataque no meio da rua, brigas e
enxaquecas; mas ela, tímida, não saía do lugar reservado para decadentes se
abrigarem. E parecia nunca ter abrigo, um lar, uma casa pra onde voltar.
Nunca consegui olhar seus
olhos, de tanto que encarava o chão. Mas eu imaginava tudo castanho nela, quem
sabe um verde caído, quem sabe tons de mel ou um breu, tons de cinza-escuro. E
eu imaginava que ela sabia de mim e sabia que eu pensava naquele choro de
esperança à noite, antes de dormir. E que a ouvia, mesmo que não falasse. Que
sorria, mesmo que ela não sorrisse de volta. Que a defendia diante dos vizinhos
e escrevia pra ela toda madrugada de insônia, porque era o que dava pra fazer
no momento. Era o que eu fazia por ela. Eu parava sempre na mesma estação, ida
e volta, encontro e despedida. Ainda dava pra ver seus pés descalços pela
janela do trem que me levava sempre a um destino contrário ao dela. Mas nunca
parecia saber pra onde ir, vagava o dia inteiro. E hoje, chão molhado de chuva,
ela pareceu se encantar pelos trilhos molhados, pois, felina e amarga, segurou
com força o que parecia ser uma liberdade feliz. Do alto, eu pude vê-la
sorrindo, me encarando. “Tem gente que vem pra nunca mais”, pensei. Tem gente
que já vira poema só de saber pisar no chão.
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