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29 dezembro, 2016

oi pedro

Oi pedro
estou meio confusa, pois não sei mexer direito nesses aplicativos de bate-papo. aqui não aparece você, será que você mudou de nome? todos vão dizer que meus textos são falsos e que uso pseudônimos porque teu nome é muito comum. mas tudo é muito comum, você não acha? pedro, o carinha da cantina me perguntou por onde você anda -e eu disse não anda- e me ofereceu um sanduíche natural com creme de ricota. eu aceitei o sanduíche porque é a nossa comida preferida mesmo que enjoe e eu pensei que o bom de enjoar às vezes é que a gente não enjoa nunca. você ainda ta usando aquele isqueiro cor de grama ou já acabou? eu sei que tava difícil de parar, desculpa. deixa só eu te dizer que aquela banda que eu tava  gostando vem cantar no meu bairro e eu não vou poder ir porque aquela rua cheira a maconha, foi o que meu pai disse. o poeta que mais parece com você é o allan jonnes e o poema que mais parece com você é aquele sobre a catuaba, da regina. por que você não volta pra gente respirar um pouco com nossos novos piercings no septo? nada é mais podre nessa cidade que cheirar aço. o avião vai partir em alguma horas. ainda vou usar aquelas plaquinhas com teu nome pra você me identificar quando eu cortar meu cabelo. me diz que é você fazendo sombra aqui atrás da porta antes que eu desista.

17 setembro, 2016

Diagnóstico

Com quantas lascas de carência se faz um delírio?
Se tuas distâncias fossem mínimas
e as excitações, máximas
eu faria do teu corpo o meu cerne.
Esse teu peito, ríspido e recluso, que teima
e desaparece diante de tanto acidente
e se liberta diante de tantos cárceres
essa tua penumbra
que finge abranger cada célula
mas a loucura é só uma parte do todo
que é você.
Diagnosticado foi o teu suor
que escorreu pelas brechas dos teus dedos
e pelos pelos do teu corpo
e te amargou.
Com quantas farpas de delírio se faz um mistério?
Se eu enxergasse claramente em escuridão total
eu tatearia até te tocar.
E diria em voz fanha
que queda nenhuma vai minimizar tua inquietação.
Que há amor, meu bem.
E há perigo.
Com quantos pedações de mistério se constrói uma dor?
Finjo que te enxergo e te conheço
para dizer que viver cansa
mas que morrer exausta.

19 setembro, 2015

mar e marlboro

as sombras se convertem
pra brilharem no teu escuro
e você finge que não vê
você está raso
mas anda se enchendo de tudo
e anda sem erguer a cabeça
você está seco
mas ainda consegue sentir.
e sente
sente
sente.
e sente o marlboro no bolso traseiro
que enche o peito vazio de fumaça
parece o mar num dia chuvoso
que espanca teu rosto e te refaz.
"traz mais um cigarro
que eu quero sentir
ainda que viver já não seja uma opção
e não que eu ande perdido,
mas tudo o que eu preciso
se encontra na minha mão."
voa mais longe, menino,
que eu só te enxergo do alto
nunca imaginei que teus saltos
fossem te fazer feliz.

07 outubro, 2014

No meu novo apartamento


Amores da cidade,
desde quando teu peito, desse jeito, arde?
Eu vi aquele prédios, meu bem,
eu pulei daqueles prédios.
Eu deixei que eles me atirassem.
Meu apartamento tá cheio de cheiro,
quem deixou essa faca estancada no meu peito?
Eu vejo o mar daqui de cima,
meu amor, eu continuo vendo o mar.
Eu só vivo enquanto puder vê-lo.
Partiram sem dizer adeus,
quando foi que teu coração se perdeu?
Prevejo o porto morrendo de saudade,
baby, cuidado com a longa viagem,
cuidado com quem já te esqueceu.
O cinza se estalou de novo,
onde foi que eu encontrei aquele rosto?
Minha vida é um recorte agora,
eu estou toda recortada.
Meu coração tá cheio de mofo.

07 setembro, 2014

pra você sorrir quando me ver

mas o amor tem dessas coisas
e eu já me cansei de esperar por ele
eu não conseguia voar
nem tomar café em paz.
eu queria voar a dois sem compromisso
e com você tomar porres de delírios
e viver só de canções.
eu deixei que visse meus poemas
tão fracos, tão sórdidos
e um rascunho que em mim guardou
a cada ensaio que te dediquei
e se não querias um novo rabisco
então por que me chamou?
subi longe aquelas montanhas
e deixei cair alguns sentimentos
li novamente aquele antigo livro
e abri a mala com os teus desenhos
com os meus meros desenhos.
eu quero morrer tendo algum espaço
entre um coração e outro
eu quero ter outro porre
e tomar banho de chuva
mas em dezembro aqui não chove.

01 setembro, 2014

Talvez tenha sido assim. Talvez não.

Eu não te conheci como nas cenas dos filmes de comédia romântica, eu não cruzei com você enquanto virava a esquina e você derrubava todos os meus livros da faculdade. Eu não te conheci numa praça, dando comida para os pássaros, nem numa loja de discos enquanto você procurava o lançamento do meu cantor favorito. Eu não te conheci lendo o jornal na padaria, interpretando uma música numa calçada qualquer, nem entrando com o cachorro num mercado onde é proibido a entrada de animais. Eu não te conheci fumando um cigarro na Bandeirantes, na Paulista ou na Ibirapuera; estacionando a bicicleta numa rua completamente esquisita e que você sabia que poderia ser assaltado. Eu não te conheci em algum movimento, algum protesto contra a corrupção, contra o preconceito, a favor do feminismo. Nem dançando loucamente na chuva enquanto todos olhavam, acreditando que você era doente. Eu não te conheci numa balada, de madrugada, onde todos estavam a beira de uma overdose. Num ônibus, de manhã cedo, onde todos estavam a beira de um ataque de fúria. Eu não te conheci no bar da esquina, no sebo do centro, na cafeteria no final da rua, nem esperando o metrô com o fone no ouvido. Não esbarrei com você enquanto nadava numa piscina de hotel, enquanto pagava a estadia num motel, nem enquanto doava algumas moedas para os mendigos. Enquanto cobrava o troco errado numa churrascaria, atropelava alguém de bicicleta, nem entrando numa igreja. Eu não te conheci andando distraído, pensando no término de algum namoro. Eu não te conheci numa rua, numa avenida, num ônibus ou metrô, numa padaria, num sebo ou loja de discos, numa balada, num hotel ou motel, numa cafeteria ou mercado, nem num filme romântico ou dramático. Acho que foi platônico, foi imaginado. Acho que eu te conheci num sonho, ou te vi em alguma estrela. Enquanto eu estava bêbada, talvez. Acho que foi encontro de almas, a gente se esbarrou enquanto cruzava a fronteira da vida. Eu estava indo, e tu, voltando.

26 julho, 2014

Anatomia em choque

Mãos acanhadas no rosto,
e o desespero que me leva de leve
e que num suspiro final me anoitece,
no suspiro final.
Punhos serrados sem pena
e a lágrima que insiste em sair
-Senhor, não me deixe cair
nesse vício mortal.
Olhos inchados na noite
e a gola que há de fechar
me deixam no cinza, ao enxergar
no cinza em que me tornei.
Lábios ressecados de novo
e que sangram sem nenhum toque
-deixa-me acabar com o estoque.
Pronto, acabei.

15 julho, 2014

Ensaio íntimo


Era perigosíssimo!
Odiava a visão de seu rosto em completa limpeza e do seu estado completamente sóbrio.
Havia uma fixação incontrolavelmente louca pelo abismo no qual se encontrava.
Abismo este que deixava tudo mais azulzinho. Um poeta em extremo desencanto consigo mesmo.
Uma alma, em suas próprias palavras, simplesmente perdida, em uma constante histeria.
Tinha uma tristeza explícita, completamente encantadora se vista intimamente. Malditos pulsos arranhados; cabeça sempre baixa, mas um olhar sempre atento. Sempre correndo perigo.
Era incapaz de amar, simplesmente.
Era incapaz de viver, simplesmente.
O que as pessoas diriam se o visse limpo, sóbrio e vivo novamente?

14 julho, 2014

Mas se você foi criada, eu sou o culpado


Eu te criei
naqueles momentos
de solidão
quando tudo é cinza
e a gente busca
o azul para colorir;
quando a melancolia
atrapalha os versos
e a tosse, por culpa do cigarro,
atrapalha o movimento das mãos;
quando procuramos uma explicação
para a falta de amor
e o por que de não
fazer mais falta.
Te criei quando as ideias
ultrapassavam o papel
de tão fortes que eram
e o vazio ultrapassava
a vontade de preencher.
Eu te criei quando achava
que não tinha mais
capacidade para criar;
as mãos não tremiam mais;
o azul não coloria mais.